Imprimir

O ensino do "faz de conta"

Ligado . Publicado em Tereza Cristina . Acessos: 1491

Por Cristina Vieira

10696A escola finge que o mais importante é o aprendizado e que a ética rege todas as ações educacionais. O professor esconde que, na corrida impiedosa da lucratividade, as instituições de ensino pressionam para que os estudantes com baixo desempenho sejam aprovados. O aluno encena que assimilou o conteúdo abordado. Nesse “faz de conta”, a educação brasileira vai, em ritmo alarmante, perdendo qualidade e credibilidade.

Para o ensino a distância (EAD), que segundo dados do Censo da Educação Superior  do MEC cresce na dianteira do ensino presencial, o peso da responsabilidade é ainda maior.

Quando quase a totalidade do que existe é medido em moedas e mercado - é convertível-, tudo vira “produto”. Diferentes projetos educacionais são “ofertados” para atender a distintos perfis e, assim, aumentar a competitividade no ambiente de negócios. Algumas instituições “vendem” vários tipos de cursos, como de aperfeiçoamento; atualização; especialização/MBA; graduação; por áreas de conhecimento; de curta duração.

O problema é que, sob o falso argumento de que cada “produto” tem características próprias, arbitrários critérios são adotados. Com isso, a ética vai sendo relativizada e os valores humanos vão sendo corroídos. Em alguns cursos, por exemplo, caso seja confirmado que tenha ocorrido plagio na elaboração da tarefa, o professor deve atribuir, logo de pronto, a nota zero. Para outros, porém, as normas podem ser mais elásticas: o plagiador pode ter a oportunidade de elaborar outra versão da atividade.

Também dependendo do “produto”, o aluno que na avaliação final não obteve pontos suficientes para ser aprovado, pode ter a chance de fazer provas complementares. Em nome da pedagogia moderna, a escola pode, inclusive, conceder bônus extras para antecipar a “conquista” do diploma.

Até mesmo para o Rei Salomão, conhecido por sua sábia justiça e que numa das mais belas passagens da Bíblia soube decidir quando duas mulheres asseguraram que uma mesma criança lhes pertencia, seria difícil explicar por que um aluno que comete crime intelectual merece segunda chance e outro não.

Esse faz de conta não terá um “final feliz” nem vai terminar com a frase:
“E viveram felizes para sempre”. A fada madrinha não vai aparecer num passe de mágica. Em vez dela, quem vai roubar a cena serão os inúmeros danos de aprovar quem não aprendeu.

As escolas devem refletir sobre o real objetivo da educação.
Os professores não devem permitir que a dignidade seja comprada ou vendida por dinheiro. A docência deveria ser exercida somente por aqueles que, de fato, desejam colaborar para a construção de cidadãos conscientes e críticos. Somente um processo educativo comprometido com valores éticos e morais poderá garantir um futuro melhor para a sociedade e para o planeta.

ALERJ

DMC Firewall is developed by Dean Marshall Consultancy Ltd