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Hoje resolvi ser feliz

Ligado . Publicado em Vilmar S. D. Berna . Acessos: 2961

Vilmar Sidnei Demamam Berna: Escritor e jornalista ambiental - Prêmio Global 500 da ONU Para o Meio Ambiente e Prêmio Verde das Américas - Editor da Revista do Meio Ambiente, do www.portaldomeioambiente.org.br e do boletim Notícias do Meio Ambiente publicados pela REBIA -Rede Brasileira de Informação Ambiental - O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

1129Dedicado ao Rafael Pimenta
Estou no meio da semana, mas resolvi desligar o despertador mesmo assim, para acordar naturalmente no dia seguinte, apenas quando não sentisse mais sono.

Quando acordei, em vez de fazer como todos os dias, levantar logo e me preparar para mais um dia de trabalho, resolvi ficar na cama mais um pouco, fazendo preguiça.

O primeiro sentimento que tive de bloquear foi o de culpa, por chegar atrasado a algum compromisso, ou decepcionar pessoas já desde cedo envolvidas em seus afazeres.

Resisti. Continuei na preguiça, sentindo o calor do colchão, a maciez do travesseiro.

Sem perceber, minha mente foi sendo invadida por pensamentos sobre problemas reais e imaginários, e normalmente começaria a organizar o dia, o que fazer primeiro, para quem ligar, que contas pagar ou não pagar, onde ir. Resisti novamente e espantei tais pensamentos para me concentrar no canto de um bem-te-vi que fez ninho no coqueiro perto de minha janela.

Então resolvi levantar, mas, em vez de me arrumar ligeiro, como todos os dias, para o trabalho, abri as cortinas e a janela e fui saldado pelo sol de uma manhã de inverno, senti um ventinho frio em meu rosto. Senti vontade de espreguiçar, todos os músculos, lentamente, e enquanto me espreguiçava, ouvia os pássaros, o balançar do coqueiro, a luz prateada do sol nas folhas do coqueiro.

Então decidi que não estava pronto para o trabalho. Vesti uma roupa mais leve e saí para caminhar naquela manhã ensolarada, sem rumo, sem culpa, sem metas, talvez para chegar só até a esquina e parar para ficar conversando com os vizinhos, ou então ir mais além e sentar num banco da praça para ver as crianças brincando, e pegar uma carona no olhar delas, na maneira despreocupada com que brincam, e criam e resolvem seus conflitos, e gritam, pulam, correm de um lado para o outro para não chegar a lugar algum, só por alegria e brincadeira!

Entretanto, naquela manhã todos pareciam muito ocupados em seus afazeres, e não havia vizinhos interessados em conversar, nem crianças brincando na praça.

Então continuei caminhando, sem pressa, e logo cheguei até a praia. Em vez de ir pelo calçadão, resolvi seguir descalço na areia, junto ao mar, prestando atenção no som ritmado das ondas para que minha mente não fosse invadida novamente por problemas, soluções, prioridades, emergências.

Vi um grupo de pescadores puxando com alguma dificuldade uma rede para a praia e resolvi ajudar. Surpresa! Pegaram muitos peixes. Estavam contentes. Fiquei contente por eles. Resolvi continuar o meu caminho, e me despedi deles. Rapidamente colocaram uma boa quantidade de peixes numa sacola e me ofereceram, o que recusei prontamente, pois não ajudei para ganhar peixes em troca, e não tinha a menor intenção de carregar sacolas naquele momento, muito menos de peixes!  Já estava satisfeito por ter ganho a oportunidade de compartilhar daquele momento especial. Mas os pescadores fizeram questão. Disseram ser uma tradição compartilhar o resultado de uma boa pescaria com quem ajudou a pescar e que se eu não aceitasse eles poderiam ter dificuldades nas próximas pescarias. Então aceitei, para agradar a eles. Mas realmente, carregar a sacola, e pesada, não estava em meus planos. Então levei o meu presente até um quiosque próximo e presenteei ao comerciante. Ele não queria receber, pois achava que eu estava querendo vender. Expliquei que era uma doação. Aí ele aceitou e me disse que passasse mais tarde ali que ele iria preparar e me ofereceria uma porção. Meu almoço ficou garantido. 

Voltei para casa, tomei um banho e aí, sim, fui trabalhar.

Descobri que a felicidade não se mede em quanto tenho de dinheiro no bolso.

Dediquei aquela manhã ao amigo poeta e jornalista Rafael Pimenta, editor do Jornal Enseada. Soube ontem que ele foi assassinado com um tiro nas costas durante um assalto, no bairro São Francisco, em Niterói. Estava num dos momentos mais produtivos de sua vida, maduro, cheio de sonhos e projetos.
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ALERJ

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