mauricio Maurício Andrés Ribeiro - Autor de Ecologizar, de Tesouros da Índia e de Meio Ambiente & Evolução Humana. WWW.ecologizar.com.br / ecologizar@gmail.com
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Ecologizar a comunicação: o meio ambiente é a mensagem (**)

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Por Maurício Andrés Ribeiro

Na sociedade moderna, é grande a influência da educação informal a partir dos meios de comunicação: o cinema, a televisão, o rádio, o videocassete doméstico, assim como a imprensa escrita diária e semanal, a internet e as redes sociais.

Ao influenciar a opinião pública e o nível médio da mentalidade sobre o meio ambiente, a comunicação altera a cena política e o comportamento de eleitores, consumidores e contribuintes, que são os leitores, ouvintes ou telespectadores, bem como os emissores de notícias nas redes sociais.

A imprensa dedica tempo e espaço a temas ambientais mas desempenha papel ambíguo estimular o hiperconsumismo por meio da propaganda e da publicidade que a sustentam. Ao não evidenciar os impactos negativos de uma produção voltada para o lucro e o consumo desenfreados, a imprensa contribui para a narcotização na sociedade e a poluição cultural, a degradação ambiental e o agravamento das mudanças climáticas.

A compulsão pela segurança pessoal, o prazer e a sensualidade, o poder, a competitividade selvagem e a possessividade são valores amplamente difundidos pela mídia. Ela tem importante influência sobre o inconsciente coletivo, exacerbando aquilo que nele já se encontra e criando resistências em relação àquilo que ainda não se incorporou à mentalidade e ao inconsciente da sociedade. A comunicação pela mídia e pelas redes sociais desempenha papel abrangente na formação de valores e mentalidades, no condicionamento de padrões de comportamento e de atitudes, bem como na formação de hábitos de consumo e de estilos de vida.

A comunicação consciente e responsável facilita que a comunidade se organize e que problemas sejam evitados antes de se tornarem graves. A veiculação de êxitos da ação ambiental pode inspirar a sociedade a transformar positivamente o meio ambiente. Isso se aplica especialmente ao âmbito local de ação, que afeta o cotidiano das pessoas. A imprensa local ou de bairro, os meios de comunicação regionais e as redes sociais contribuem nesse processo. A produção e a disseminação de programas e de matérias sobre a realidade local têm importância crucial na formação da consciência social.

Até mesmo veículos áridos como os diários oficiais, ao publicarem leis, decretos e portarias sobre o meio ambiente, são úteis para informar sobre modos de agir e auxiliar na formulação de políticas ecologizadas.

Quando a imprensa age de forma reativa, parte dos fatos que se tornam notícias somente são divulgados quando já não existe muito a ser feito em termos preventivos. Tornam-se então uma denúncia a somar-se às diariamente veiculadas. A saturação de denúncias pode produzir crescente anestesia e insensibilidade social. A denúncia que alia a imprensa a movimentos ambientalistas e a cidadãos contribui para tornar transparentes e de conhecimento público problemas que incomodam o agente poluidor da natureza. Obrigam o empresário e a empresa privada ou pública, assustados com sua imagem criticada, a saírem da inércia e a tomarem providências que por muito tempo adiaram. Assim também, o administrador público que sofre danos eleitorais e na sua autoimagem é levado a responder às denúncias. Passa a desejar limpar sua imagem, deixa de ser conivente com os agentes da degradação ambiental que frequentemente são os grandes financiadores de campanhas eleitorais.

Os limites à liberdade de imprensa explicitam-se quando há conflitos de interesses que envolvam anunciantes que degradem a natureza. A serviço de setores do capital ou da burocracia do Estado, os meios de comunicação tornam-se limitados para cumprir seu papel de serviço social. A democratização dos meios de comunicação, a abertura de concessões para emissoras de TV e rádio com vista a dar oportunidade para que a pluralidade de ideias se expresse, garantirá, em longo prazo, a própria credibilidade da imprensa como instituição social.

As notícias fluem por entre canais de poder, que são administrados pelos donos e pelos editores da indústria de comunicação. Os valores desses segmentos sociais e seu comprometimento com a ética ecológica são importantes para que a imprensa impulsione a consciência ecológica. Nesse contexto, torna-se especial o papel do poder feminino dentro da mídia. A ecoinformação precisa, para ter credibilidade e objetividade, de lisura e compromisso com a verdade e com o consumidor da informação; precisa diferenciar-se da egoinformação contaminada pelo desejo e pelo interesse particularista.

A limpeza da imagem e a defesa dos patrões – empresas privadas ou públicas – é parte da atividade de alguns jornalistas e comunicadores. A imprensa é um dos instrumentos das pressões e lobbies por tomadas de decisão rápidas. O poder de manipulação da opinião pública pela imprensa, razões comerciais e gangsterismo existem nas empresas de comunicação.

O campo do jornalismo ambiental, quando transformado em balcão de negócios, aninha o poder aético, monopolizador, que extorque e vende proteção informativa e elogios aos que pagam para recebê-los; manipula informações, o que compromete em longo prazo a credibilidade do veículo que informa; responde com docilidade aos favores recebidos, num processo de marketing enganoso; assim como contempla com a omissão de dados ou com o silêncio aqueles que não lhe prestam vassalagem; critica adversários, sem fundamentos e levianamente. Enriquecem-se os jornalistas que usam em proveito pessoal os recursos e caminhos que lhes são abertos pela força e pelo poder de sua profissão.

As questões ambientais ocorrem freqüentemente em meio a conflitos de interesses distintos: os ambientalistas e cidadãos incomodados versus os agentes poluidores; interesse público versus o privado; interesses de longo versus de curto prazos. Nesse contexto de conflitos, a comunicação pode abrir espaço à pluralidade de visões, de maneira a respeitar a diversidade cultural, favorecer a tolerância, valorizar a não violência. É importante evitar a tentação totalitária de procurar impor um único ponto de vista, de forma a negar espaço a visões opostas ou complementares, e evitar cobertura distorcida ou que leve à veiculação de meias verdades. Aos interesses particulares freqüentemente não interessa a transparência nas decisões nem os procedimentos participativos e a gestão colegiada, porque esses procedimentos têm maior chance de distinguir e revelar as reais motivações dos interessados. Processos lentos podem ser bonitos, mais ainda quando são democráticos. E podem ser um bom antídoto contra o açodamento que costuma camuflar interesses particularistas.

É crucial a lucidez de discernir o que é informação confiável no meio do cipoal informacional com alto grau de contaminação e poluição informativa devido a interesses particularistas e manter uma saudável dúvida diante de tais informações.

A mentira e o falseamento da verdade constituem forma de violência na comunicação. A ética ecológica é uma ética da comunicação não violenta. O jornalismo com bom padrão técnico e ético visa a melhor informar o leitor, ouvinte ou telespectador. O compromisso com a verdade pode ser facilitado pelo sistema de ouvidoria dentro das redações, para fazer autoanálise e dar espaço à sociedade civil para que influencie diretamente as políticas de comunicação.

Na década de 1960, Marshall MacLuhan propôs que, na aldeia global do planeta interligado pelas telecomunicações, o meio é a mensagem. Meio vem do latim media, hoje usado como mídia, e desse termo derivam medium, mediunidade, meios de comunicação, meio ambiente, mediação. No século XXI, o meio ambiente é a mensagem.

A complexidade dos temas ecológicos é um fato que afugenta profissionais de imprensa. Em geral existe um entendimento superficial e rudimentar sobre questões complexas como a gestão da água ou a questão das mudanças climáticas e o jornalista prefere não se arriscar a errar. Prefere cobrir temas menos complexos e que lhe dão maior simpatia junto ao público.

Ecologizar a comunicação

A ampla gama de questões ambientais da atualidade, que não cessa de crescer, está sujeita a muitas controvérsias e polêmicas. Para cada tema específico dessa agenda, é usual haver posições que variam de A a Z, do preto ao branco, passando por todo o espectro de tonalidades, cada uma delas com seu embasamento e fundamentação próprios. Há posições extremadas que, por interesses econômicos de autoproteção e por defesa psicológica para reduzir o sentimento de culpa, procuram minimizar a gravidade dos problemas, tampar o sol com a peneira, legitimar comportamentos que pressionam o ambiente; no outro extremo, há posições catastrofistas, que dramatizam, amplificam e exageram os problemas, semeiam pânico e histeria, para obter atenção política e recursos econômicos. Ambos os extremos prestam um desserviço à sociedade: por um lado, os integrados podem atrasar a tomada de decisões; por outro lado, os apocalípticos podem colocar em descrédito a causa ambiental, ao anunciarem catástrofes que não ocorrem. A confiabilidade das fontes de informação é um valor fundamental. Aqueles que repetem alarmes falsos ou que tentam enganar sobre a gravidade dos problemas perdem a credibilidade.

Na cobertura da questão ecológica, alguns temas são superexplorados e cala-se sobre outros. Por conveniência empresarial ou ideológica, deixam de ser pautados temas que possam causar desgastes diante de anunciantes, tais como a indústria da carne, a indústria automobilística, a indústria do petróleo ou da extração de minérios, a indústria alimentícia e a farmacêutica. São pautados e supervalorizados assuntos que causam sensação e ajudam a atrair leitores e espectadores, porém que não contribuem para a formação de consciência ecológica profunda. Fritjof Capra (1993)1 denuncia os meios de comunicação ao afirmar que são atualmente dominados pelo mundo dos grandes negócios, especialmente nos Estados Unidos, e que seu conteúdo é devidamente censurado.

Ecologizar a comunicação significa mais do que criar editorias de meio ambiente na mídia. Significa introduzir em cada uma das editorias – de política nacional ou externa, economia, cultura, cidades, ciência e tecnologia, assuntos locais, além de esportes, agropecuária, indústria e comércio, negócios, finanças etc. – o toque ecológico. Esse tema não pode ser segregado nas páginas, cadernos ou programas de meio ambiente, mas precisa permear cada uma e todas as áreas da comunicação, para que seja eficaz como instrumento de mudança cultural e para que complemente as demais formas de aprendizagem formal e informal.

Para ecologizar a comunicação, recomenda-se:

  • Capacitar e formar os jornalistas, assessores de imprensa de órgãos públicos e de empresas, os editores e toda a cadeia de profissionais que cuidam da comunicação nos temas relacionados à sustentabilidade – ambientais, hídricos, ecológicos e climáticos; entender as questões de forma integral e ir além dos enfoques pontuais sobre temas específicos. O editor ou o jornalista bem preparado e capacitado profissionalmente para absorver a informação e expressá-la pode melhorar o nível de cobertura da imprensa sobre temas ambientais, e assim contribuir para a educação e as mudanças de valores e de ação prática. Nesse aspecto, o aprimoramento da formação cultural e dos conhecimentos técnicos e valores éticos do jornalista nas escolas de comunicação e fora delas é essencial para melhorar o nível de cobertura sobre a variedade de temas relacionados com as questões ecológicas.
  • Romper e desmistificar a linguagem e o jargão técnico, traduzindo as questões em termos que um cidadão comum possa entender. O jornalismo científico contribui para a formação da consciência ecológica, ao ligar a ciência moderna e o cidadão comum, de modo a transformar conhecimentos científicos em linguagem acessível, ajudando a metabolizar, na sociedade, valores ecologizados. Ao divulgar temas emergentes, tem função proativa na mudança de mentalidades e valores.

. Matérias opinativas ou de divulgação científica tornam-se fontes de referência para o leitor carente de informações atualizadas e auxiliam na compreensão das mudanças.

  • Despartidarizar os temas ecológicos e colocá-los acima do patamar de interesses políticos e eleitorais de curto prazo, e tratá-los como política pública com visão de longo prazo; evitar contaminar o tema para conferir-lhe credibilidade.
  • Usar a comunicação como ferramenta de educação – educomunicação e ecopedagogia. Ela cumpre finalidades educativas ao colaborar para a expansão da consciência ecológica; tornar os cidadãos conscientes de sua unidade com o meio do qual tiram seu sustento; aguçar a percepção ambiental, por meio da educação dos sentidos; influir sobre hábitos, comportamentos e estimular ações de respeito ao meio ambiente; explicitar os impactos que o estilo da vida e os hábitos de consumo exercem sobre os ecossistemas naturais.
  • Alimentar com informação e conceitos os jornalistas para abordarem com competência os temas ecológicos. Usar o fluxo de informações como o fluxo de água, de maneira a evitar enxurradas de releases que inundam e assoreiam. Distribuir informações como uma boa chuva e ter um reservatório para os períodos de seca.
  • Divulgar boas práticas. A promoção e a divulgação de estudos de caso e de boas práticas de cidades sustentáveis, cidades saudáveis, ecovilas, permacultura, ecodesign são instrumentos poderosos para influir na consciência social e no aprendizado coletivo.
  • Usar a internet como importante veículo para divulgar e discutir as questões ecológicas.

A ampliação da função de serviço da imprensa, com as inserções de serviço público, tem importante papel educativo. Bem utilizadas elas contribuem para a criação de hábitos ecologicamente adequados.

Os veículos de comunicação constituem concessões do poder público. O cidadão pode reivindicar maior intensidade e quantidade de inserções de serviço ambiental, previamente regulamentadas e que tenham alto retorno educacional; e realizar uma avaliação histórica abrangente sobre o desempenho da mídia na formação da consciência ecológica e sobre seu real papel de ecoalfabetização.

A poluição cultural e informativa precisa ser reduzida e informação de melhor qualidade precisa estar disponível para embasar a tomada de decisões e facilitar a participação consciente. A busca da sensação com motivação comercial frequentemente distorce e prejudica a qualidade da informação veiculada pela empresa jornalística. Da mesma forma, é importante que transcenda o enfoque denunciador.

Uma sociedade civil ativa é capaz de mobilizar a imprensa e a opinião pública, com potencial para compelir os governos a investir na gestão ambiental, corrigir e prevenir a ocorrência de novos problemas.

(*) autor de Ecologizar, de Tesouros da Índia e de Meio Ambiente & Evolução Humana. WWW.ecologizar.com.br

(**) Versão original deste texto integra o livro Ecologizar – volume 3- instrumentos para a ação. 4ª edição, Editora Universa, 2009.

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