mauricio Maurício Andrés Ribeiro - Autor de Ecologizar, de Tesouros da Índia e de Meio Ambiente & Evolução Humana. WWW.ecologizar.com.br / ecologizar@gmail.com
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Gerenciamento integral do ciclo da água

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Por Maurício Andrés Ribeiro

As águas se interconectam na natureza. Evaporam com o aumento de temperatura, depois se precipitam como chuva, neve ou granizo, escorrem nas águas superficiais, se infiltram no solo e brotam em nascentes. As águas fluem em vasos comunicantes, aéreos, subterrâneos e superficiais.

A hidrosfera compreende as águas em estado sólido, líquido ou gasoso; águas subterrâneas, na superfície ou na atmosfera. A gestão integral do ciclo da água envolve trabalhar com a agua superficial, subterrânea e em estado meteórico. A gestão integral do ciclo da agua vai além da gestão integrada de recursos hídricos superficiais e subterrâneos e inclui também aquilo que se passa quando ela se encontra na atmosfera. Exige considerar aquilo que ocorre quando ela se encontra em estado de vapor na atmosfera, bem como o que ocorre quando ela escorre superficialmente, se infiltra nos solos e forma os lençóis de agua subterrâneos.

Para se gerir a agua de modo integral é preciso compreender as interconexões entre os vasos comunicantes das aguas subterrâneas, superficiais e atmosféricas. Isso deve ser feito de preferência com números e séries históricas que deem embasamento às propostas; A falta de dados e informações não deve ser um pretexto para a inação, pois há princípios de prudência que precisam ser seguidos. A compreensão qualitativa do que ocorre no ciclo da água indica o rumo que as ações de planejamento e gestão devem tomar.

O conhecimento sobre o organismo da Terra e os ciclos biogeoquímicos permite compreender como fenômenos numa parte do globo afetam as demais. Assim, por exemplo, o fenômeno do El Nino, o aquecimento das águas do pacífico, influi diretamente sobre a distribuição de chuvas na América do sul, agrava secas no nordeste brasileiro e provoca inundações no sul do país. É crescente o conhecimento sobre a atmosfera, seu teor de umidade e o vapor d’água nela existente, sobre evaporação,evapotranspiração (a evaporação a partir das plantas). Pesquisas que recenseiam as nuvens tais como o projeto Chuva, do INPE, permitem prever tempestades e simular impactos das mudanças climáticas http://chuvaproject.cptec.inpe.br/portal/noticia.ultimas.logic.

A transposição de agua de uma bacia para outra pode ser feita por meio de obras de infraestrutura de engenharia que transportam aguas superficiais. Também é feita pela natureza por meio dos rios voadores, sendo a umidade do ar transportada pelas nuvens de uma região a outra, de uma bacia para outra. Trata-se de um modo natural de transposição, econômico, sem demanda de energia, crescentemente influenciado por ações humanas ao desmatar, ao criar aglomerados urbanos, ao interferir sobre o ciclo da agua e alterar os ciclos do carbono, do nitrogênio, do enxofre.

Os rios voadores que se formam a partir da umidade evaporada na Amazônia são essenciais para prover chuvas no centro oeste e no sudeste brasileiro. Aquilo que ocorre a Amazônia afeta a disponibilidade de agua no sudeste, e a atuação sobre o desmatamento na Amazônia é parte integrante de uma gestão integral do ciclo da agua. Ver por exemplo a matéria sobre Rios voadores com Monica Porto e Antonio Nobre:

(Ver como o desmatamento da Amazônia influencia a seca no sudeste brasileiro em http://g1.globo.com/fantastico/noticia/2014/08/falta-dagua-em-cidades-tem-ver-com-devastacao-desenfreada-da-amazonia.html )Uma das formas de atuar sobre a agua atmosférica é o bombardeamento de nuvens para precipitar chuvas. A revista Scientific American n.63, edição especial sobre água, tem uma matéria sobre o tema “Invocando Chuva”, por Dan Baum, que mostra a semeadura de chuva por meio de iodeto de prata Isso faz aglutinarem dentro das nuvens as pedras de gelo que se derretem ao caírem para regiões da atmosfera em que a temperatura é maior, formando chuvas ou tempestades de granizo, quando chegam ainda em estado solido na superfície. Em países onde isso vem sendo usado, há consequências conflitivas. Na China por exemplo, isso gerou disputas entre províncias vizinhas, pois nuvens bombardeadas num estado vieram a chover em outro, devido aos movimentos dos ventos, subtraindo água de um deles em benefício do outro.

A gestão integral do ciclo da água exige ir além dos tradicionais instrumentos da gestão de recursos hídricos e usar instrumentos ligados a uma compreensão mais ampla do ciclo da agua e das consequências que o desmatamento numa região pode trazer para a disponibilidade de água em outra região. Ela implica em atuar sobre a demanda por produtos, sobre a economia para reduzir as demandas excessivas de agua, sobre a cultura e os hábitos alimentares e de vida, para reduzir as demandas que causam estresse hídrico. Para se lidar de modo integral com a gestão do ciclo da água, pode-se lançar mão tanto das geoengenharias e modos de interferir com a produção de precipitação de chuvas, como reduzir demandas por agua nas diversas atividades econômicas, especialmente o seu consumo consuntivo no setor que mais a utiliza, a agricultura irrigada. Ela pode envolver a produção de água, a recarga de aquíferos por meio de barraginhas e barragens subterrâneas. Pode envolver o controle da salinização e das cunhas salinas, nos locais em que elas interferem com a agua doce.

A visão integral do ciclo da água ajuda se articular seu planejamento e gestão, numa perspectiva de longo prazo.

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