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Austeridade feliz e infeliz

Ligado . Publicado em Maurício Andrés Ribeiro . Acessos: 1514

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Por Maurício Andrés Ribeiro

Austeridade é rigor no controle de gastos, redução de despesas e do consumo, poupança de recursos. Pode ser adotada voluntaria e conscientemente como uma aspiração, ou pode ser imposta a terceiros que não a desejam.

As políticas de austeridade econômica executadas de fora para dentro e de cima para baixo sobre países e populações que descontrolaram suas finanças despertam indignação e rejeição, frustram desejos e tornam-se motivo de sofrimento. Tais pessoas ou sociedades são obrigadas a reduzir suas aspirações de consumo que consideram que lhes traz bem estar material. Tais políticas econômicas de austeridade têm uma conotação negativa, de privação de bens materiais e de redução do conforto que os acompanha. Os governos que as adotam sofrem resistências. Imposta, a austeridade é sentida como algo indesejado, como negação de um direito. Trata-se da austeridade infeliz.

Austeridade feliz é a proposta do ecologista Pierre Dansereau, de se adotar um modo de vida escolhido consciente e voluntariamente. Pierre Dansereau foi pioneiro ao intuir a necessidade de reduzir o consumo material para poupar os recursos da natureza. É uma atitude de vida capaz de harmonizar o ser humano com o ambiente, um modo de vida que reflete uma visão compassiva e solidária. A renúncia ao luxo e ao supérfluo, a contenção e limitação voluntaria do consumo reduzem os impactos ambientais da ação humana. Ela vai na contramão dos apelos consumistas, valorizados pela propaganda como relevantes para a felicidade. Na linha do não consumismo, da simplicidade voluntaria, da frugalidade, do conforto essencial e da sobriedade, a austeridade feliz leva a um modo de vida que reduz o peso da pegada ecológica sobre a terra.

Frugalidade é sobriedade, temperança, parcimônia, simplicidade de costumes, de vida. O economista Herman Daly, voz respeitada pela sua sensibilidade ecológica, afirma que precisamos superar a idolatria do crescimento e o apego irracional ao crescimento exponencial contínuo num planeta finito sujeito às leis da termodinâmica. Podemos desenhar e gerir uma economia estável, que respeite os limites da biosfera. Ele propõe, antes de buscar a ecoeficiência, valorizar a frugalidade. Onerar o uso de recursos naturais por meio de reforma tributária ecológica estimularia a frugalidade, refreando a demanda. Assim, por exemplo, um imposto sobre o carbono provocaria, como resposta adaptativa a combustíveis mais caros, a eficiência e a redução de desperdícios. Ele defende que primeiro se adote a frugalidade para então, como consequência, ter a eficiência. Pois na política energética e climática “quanto mais se aumenta a eficiência das máquinas, maior o incentivo para que sejam mais usadas, maiores mercados terão e o resultado é que o efeito e impacto agregados, ao invés de diminuir, aumentarão.” Os ganhos obtidos pelas ações na ponta da produção são neutralizados e transformados em perdas, pelo aumento global de emissões de gases devido ao aumento da população e de suas aspirações de consumo.

Aumentar a ecoeficiência e a produtividade, bem como reduzir desperdícios de materiais e de energia constituem parte da resposta à questão do aquecimento global. A outra parte da resposta só pode ser dada pela frugalidade do consumidor, do cidadão e da sociedade. A frugalidade pode reduzir a emissão de CO2 na atmosfera e a emissão de todos os tipos de resíduos na biosfera. Há exemplos históricos de frugalidade em antigas civilizações. Gandhi disse que “A civilização, no verdadeiro sentido da palavra, não consiste em multiplicar nossas necessidades, mas em reduzi-las voluntariamente, deliberadamente.” Milenarmente, a Índia adotou estilo de vida simples e frugal, desenhou e geriu uma economia que respeitou os limites da biosfera. Sacralizou bichos e plantas. Adotou o vegetarianismo, organizou-se espacialmente numa rede de pequenas aldeias, adotou posturas corporais que reduzem a demanda por objetos. Mas na Índia atual os apelos ao consumo se exacerbam e com eles a pressão sobre a natureza e o clima. A frugalidade adotada voluntariamente por milênios cede lugar a estilos de vida predatórios de uma classe média consumista e a aspirações de consumo material crescentes por parte daqueles que sofrem privações.

Simplicidade voluntária também é uma opção deliberada de quem escolhe reduzir suas demandas de consumo em prol de colaborar para poupar os recursos da natureza. Duane Elgin foi pioneiro em escrever um livro sobre a simplicidade voluntaria e distingui-la da pobreza forçada e involuntária.

Outro conceito correlato é o de conforto essencial, entendido como o nível de conforto básico que traz bem estar e que evita o supérfluo e o consumismo. Para que ele seja adotado voluntariamente, é preciso dissolver os desejos de mais bens, mais viagens, mais eletrodomésticos, mais conforto material, que têm como consequências mais poluição e mais gastos de recursos naturais. Em alguns casos, implica em virar a própria mesa e sair da zona de conforto, que leva ao comodismo e ao conformismo.

A diferença entre a austeridade infeliz e a austeridade feliz está na atitude de quem a adota e vive. Num caso, é vista como privação e frustração. Noutro caso, é uma escolha voluntária e ecologicamente consciente.

ALERJ

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