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Eletricidade e Água – Transferindo a Responsabilidade da Ineficiência para os Consumidores

Ligado . Publicado em Luiz Prado . Acessos: 1342

Por Luiz Prado

São ridículas e mesmo ofensivas as muitas campanhas que tentam “ensinar” os clientes das concessionárias de água e de eletricidade a serem mais “eficientes” no uso desses dois recursos para os usuários finais, quando as perdas no sistema são imensas nos dois casos.

Em se tratando de eletricidade, os últimos números do Banco Mundial indicam que em 2011 as perdas na transmissão e na distribuição eram de 16% no Brasil – com uma ligeira melhora de 1% em relação anterior -, elevadíssimas quando comparadas com os percentuais de países como a Holanda – 4%, o Canadá, a França e a Austrália – 5% -, os EUA e a China – 6% -, e até mesmo o Chile – 7%.  Consideradas as dimensões continentais de muitos desses países, não há como atribuí-las as distâncias na transmissão como tentar fazer a ANEEL.

A tecnologia de transmissão a longas distâncias vêm evoluindo rapidamente.  Em 2010, a tecnologia conhecida como HDVD (sigla em inglês para corrente direta em alta voltagem) já encontrava-se em processo de conclusão numa linha de 1.400 km na China, ligando as províncias de Yunnan e Guangdong, com perdas de apenas 5% na transmissão de 5.000 MW, o conferiu um prêmio asiático de eficiência em 2011.  Foi o primeiro projeto de transmissão do mundo operando em 800 kV.

As perdas nos sistemas de distribuição no Brasil foram estimadas pela Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica – ABRADEE como variando imensamente de uma distribuidora para a outra, como se pode ver na figura abaixo.

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Espertamente, a Associação não faz a diferença entre perdas técnicas e perdas comerciais (estas, decorrente do roubo de eletricidade).  Tampouco, faz qualquer referência à adoção de sistemas de distribuição e de medição inteligentes (smart grids e smart meters), que permitiriam ao consumidor a utilização de equipamentos de maior consumo nos horários de menor demanda, em lugar das ridículas “bandeiras” coloridinhas.

Esses percentuais elevadíssimos não levam em conta os ganhos que se poderiam alcançar na geração – com a adoção de turbinas mais modernas (repotencialização) e de sistemas de automação, e menos ainda nos estímulos que poderiam – e deveriam – ser dados à adoção mais acelerada de equipamentos de menor consumo, como lâmpadas LED para iluminação pública ou mesmo para consumo residencial.

Na área da distribuição de água, parece desnecessário repetir que as concessionárias perdem imensos percentuais da água total produzida.   Como não existem sistemas de auditoria independente, fala-se com naturalidade em 40% no caso da (Nova) Cedae, ainda que algumas fontes internas estimem que o percentual é bem mais alto.  Considerando que as concessionárias de água e esgoto são grandes consumidoras de energia elétrica, os prejuízos sociais e econômicos são elevadíssimos.

Também para a redução de perdas, as tecnologias já se encontram disponíveis, mas raramente ou quase nunca são adotadas.  Com essas tecnologias, não é difícil saber os setores ou áreas em que as perdas são maiores, priorizando os reparos, a substituição de trechos de redes cuja vida útil já se esgotou, e até mesmo identificando as tão proclamadas ligações clandestinas (às quais as concessionárias tentam atribuir uma parte significativa das perdas para efeitos midiáticos).

Além disso, o medidores inteligentes (smart meters) já se encontram disponíveis para a aferição do consumo de água pelos usuários finais.  Esses medidores disponibilizam a informação em tempo real para as concessionárias – reduzindo custos de medição – e também para os consumidores, permitindo-lhes avaliar vazamentos internos.

Com um pouco de bom senso, as concessionárias poderiam permitir aos consumidores finais a adoção – às suas expensas – de tais medidores depois de certificá-los.  Mas elas temem que isso possa reduzir a cobrança por estimativa ou pela simples área dos imóveis.

A dedicação ao atraso tecnológico é uma parte importante do “custo Brasil”.

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Evidentemente, há bons engenheiros brasileiros nos dois setores – de geração de energia e de abastecimento de água – que sabem da existência dessas tecnologias.  Mas esses não têm poderes para definir políticas públicas, para priorizar investimentos, ou para combater o lobby das empreiteiras e dos representantes das tecnologias mais antiquadas.


Por Luiz Prado

ALERJ

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