Ignorar sustentabilidade é um erro econômico, diz ex-vice-ministro alemão

Marcelo Leite
são Paulo - Um economista que chega a vice-ministro de Finanças de uma potência do porte da Alemanha, como Caio Koch-Weser, não tem tempo para platitudes sobre o aquecimento global.
São os números que interessam, e eles não faltaram na palestra sobre mudança climática e desenvolvimento sustentável que o brasileiro de Rolândia (PR) deu no último dia 18 no Instituto Fernando Henrique Cardoso.
Eram tantas as cifras que os ouvintes mal conseguiam anotar. Um entre muitos: superam meio trilhão de dólares os subsídios anuais concedidos no mundo para os combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás natural) que agravam o efeito estufa.
É a melhor resposta para quem acha que as energias alternativas são caras e só sobrevivem com subsídios.
Koch-Weser acha que é hora de atribuir um preço ao carbono --ou seja, ao dióxido de carbono (CO²) emitido na queima desses combustíveis-- e dar ao mercado os sinais corretos, sem escamotear o que os economistas chamam de externalidades (efeitos colaterais, como o aquecimento global).
"Quero que o mercado funcione, com os incentivos e preços corretos", diz o vice-presidente do Deutsche Bank. "Precisamos da iniciativa e das inovações de empresas, o que só se obtém numa economia de mercado."
Koch-Weser está preocupado com a entrada de 3 bilhões de pessoas na classe média mundial, nos próximos 25 anos, porque não haverá terra e outros recursos naturais para garantir-lhes padrões de consumo --energia, gasolina, carne-- comparáveis aos dos americanos.
Para ele, o Brasil ocupa situação privilegiada, mas acha que virá antes da China a liderança tecnológica para o mundo desenvolver uma economia de baixo carbono --por força do risco de distúrbios sociais que a poluição já suscita no país asiático.
Leia a seguir trechos da entrevista realizada por telefone na sexta-feira, do Rio de Janeiro, onde Koch-Weser participou da conferência Urban Age, organizada pelo Deutsche Bank e pela London School of Economics.
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Folha - Qual é hoje o principal obstáculo para a sustentabilidade da economia mundial e o que podemos e devemos fazer para enfrentá-lo?
Caio Koch-Weser - Há dois gargalos principais. Um é a governança e o outro são os incentivos. Somos um mundo muito multipolar, hoje, mas fracos na governança multilateral, nas Nações Unidas e no G20. No caso dos bens e males públicos globais, como a mudança do clima e outros, não temos os sistemas adequados não só para debater, mas para tomar decisões e monitorar sua execução. Acredito em alianças e coalizões de países, cidades e companhias com mentalidades semelhantes para liderar e obter avanços.
O outro problema é o dos incentivos. Precisamos de um preço para o carbono, precisamos precificar as externalidades, os efeitos colaterais das políticas na escala global, seja para água, energia ou carbono, que reflita a escassez ou os danos. Precisamos do incentivo --para setores, empresas e domicílios-- do preço do carbono, por meio de um imposto sobre as emissões ou de um sistema "cap-and-trade" [cotas e comercialização de permissões para emitir].
O sr. tem uma bem-sucedida carreira em finanças e desenvolvimento e hoje preside a Fundação Europeia do Clima. Ela tem em vista uma economia de baixo carbono, meta que em alguns setores e países é vista como uma ameaça à liberdade empresarial. A agenda da mudança climática é uma agenda anticapitalista?
De modo algum. Quero que o mercado funcione, com os incentivos e preços corretos. Precisamos da iniciativa e das inovações de empresas, o que só se obtém numa economia de mercado.
A Fundação Europeia do Clima é hoje a fundação mais importante da Europa com o objetivo claro e definido de reduzir as emissões de CO2, por meio de consultoria de políticas públicas, campanhas e aconselhamento de empresas e uma equipe competente de cerca de 70 especialistas. Seu aspecto inovador é ser financiada por várias outras fundações de fomento, do mundo todo, inclusive americanas.
Só para dar um exemplo, trabalhamos com a Comissão Europeia em cenários e roteiros de energia para 2050, sobre como descarbonizar o setor de eletricidade, como aumentar a eficiência do setor de transportes. Trabalhamos tecnicamente, somos independentes e financiados globalmente.
Acredito firmemente que precisamos do que chamo de coalizões de empresas progressistas, como faz a Unilever com outras companhias para a descarbonização de sua cadeia de suprimentos. Precisamos do mercado. O setor privado diz: dê-me um preço para o carbono que eu dou conta do recado. Mas tem de ser um preço confiável, previsível, que tenha longevidade e credibilidade.
A mudança climática é a única razão para buscar uma economia de baixo carbono, ou há outras razões econômicas e financeiras para isso?
Isso tudo está inter-relacionado. Gosto de falar de um triângulo: terra, ou produção de alimentos; água, disponibilidade e manejo; e energia. Se esse triângulo interdependente for administrado da maneira correta, é claro que terá impacto no clima.
Uma das crises principais será a da água. Basta olhar para o Oeste dos Estados Unidos, a China, a Índia, vários lugares. O Brasil está fora, tem tudo --terra, água e energia. É uma responsabilidade e uma oportunidade.
São 3 bilhões de pessoas que vão entrar na classe média nos próximos 25 anos. Temos de incluir nas políticas de mudança climática não só a redução de CO2, mas um uso de recursos naturais vastamente mais eficiente. No futuro teremos de medir a produtividade também pelo uso eficiente de recursos, como medimos hoje a produtividade do trabalho. Trata-se de um novo paradigma, em que a qualidade será mais importante que o ritmo, a velocidade e a quantidade de crescimento.
Por que um investidor deveria buscar oportunidades em empresas que tenham objetivos de redução de carbono e outras metas ambientais? Buscar o máximo de rentabilidade não é sua primeira responsabilidade?
- Ant
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