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Sem abelhas, sem comida

Ligado . Publicado em Biodiversidade . Acessos: 1752

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Foto: Wikimedia Commons

por José Eduardo Mendonça

Já tem quase uma década que criadores de abelhas e cientistas começaram a perceber um declínio nas populações destes insetos e de outros polinizadores, marcadamente na Europa e Estados Unidos (embora o fenômeno esteja se espalhando na Ásia e na África). Eles são de importância crítica para nossa oferta de alimentos.

Estudiosos mostraram que esta queda, conhecida como desordem do colapso de colônias, se deve a diversos fatores, da mudança do clima a vírus e perda de habitats. Mas o uso exagerado de alguns pesticidas, conhecidos como neocotinóides, é um contribuinte importante. São os mais usados no mundo. A substância reveste as sementes utilizadas nas plantações. Estima-se, por exemplo, que estes pesticidas estejam presentes em mais de 95% da produção americana de milho.

A atração dos produtos é simples. Agricultores plantam suas sementes na primavera. O neocotinóide, que se dissolve na água, é absorvido quando a planta cresce e protege seus tecidos. Mas é também um tiro no pé. Sobram resíduos dos pesticidas no néctar e pólen, mesmo quando a planta floresce, e mesmo depois.

Os neocotinóides, como o nome sugere, são derivados da nicotina e funcionam como veneno para o sistema nervoso. Os defensores de seu uso dizem que são na verdade um repelente de abelhas. Mas hoje é muito difícil sustentar este argumento.

Em matéria publicada aqui no Planeta no ano passado, Karina Toledo, da Agência Fapesp, entrevistava alguns especialistas, e o que eles disseram foi alarmante. “As abelhas domesticadas da América do Norte e da Europa estão desaparecendo de uma hora para outra, sem nenhum motivo aparente. Enxames inteiros somem de repente, como por encanto, e seus criadores encontram a caixa usada para a criação apenas com a abelha rainha e pouquíssimas operárias à sua volta. Na rotina diária à procura de alimento, as abelhas se afastam até 3 quilômetros de sua colônia. Ocorre que não estão voltando para casa”, relatou Karina.

O valor do serviço prestado pelas abelhas é de cerca de 10% do valor da produção agrícola mundial”, disse no artigo a professora da Universidade de São Paulo (USP) Vera Lúcia Imperatriz Fonseca. Isto é calculado em U$ 212 bilhões. Verduras e frutas lideram as categorias de insetos que necessitam de insetos para polinização (com valores estimados em US 56 bilhões cada). Juntando todas as culturas, a soma sobe para quase U$ 800 bilhões.

“Cerca de 75% da alimentação humana depende direta ou indiretamente de plantas polinizadas ou beneficiadas pela polinização animal. Dessas, 35% dependem exclusivamente de polinizadores. Nos demais casos, insetos como as abelhas ajudam a aumentar a produtividade e a qualidade dos frutos”, afirmou Fonseca na matéria.

Voltemos à chamada desordem do colapso de colônias e o que a provoca. A monocultura é um dos fatores. Os agricultores plantam apenas um tipo de cultura no campo e soltam as abelhas para a polinização. Assim abelhas recebem só um tipo de alimento, sem todos os outros nutrientes essenciais. Outro fator é que, como pesticidas enfraquecem o sistema imunológico destes insetos, os parasitas se aproveitam e em alguns casos são responsáveis pela destruição de metade das colmeias.

Um terceiro é que, como o repertório genético fica comprometido nas abelhas com baixa imunidade, os produtores de alimentos começam a transportar colônias de um lugar para outro a fim de introduzir diversidade nas colônias. No entanto, os insetos são altamente propensos ao estresse e se tornam muito dependentes de padrões do tempo e de climas estáveis. Se o estresse do transporte for excessivo, as operárias podem abandonar sua rainha na busca de condições mais estáveis.

Tudo isso poderia ser revertido em uma década, dizem especialistas europeus, se um terço dos alimentos consumidos fossem plantados de forma mais responsável.

Agora surge uma surpresa. Pesquisadores no Reino Unido conduziram recentemente um experimento de laboratório no qual deram a abelhas a escolha entre uma solução açucarada e outra com neocotinóides. E dizem ter descoberto que as abelhas preferem o pesticida. Como assim? Desde o final de 2013, o uso de três neocotinóides, clotianidina, imidacliprida e tiametoxam, foi restrito na União Europeia, como parte de uma moratória de dois anos, depois de pilhas de evidência dos malefícios de seu uso. Trata-se de um negócio bilionário, e as grandes corporações que as produzem, de olho na satisfação dos acionistas, mas não necessariamente na agricultura responsável e sustentável, investem muito em campanhas mundiais de relações públicas para tentar negar a ciência (como o fizeram a indústria do tabaco e a dos combustíveis fósseis). Ah. A pesquisa foi muito elogiada pela Bayer CropScience, uma líder do setor.

Fonte: Planeta Sustentável.

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