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Baia de Guanabara, a poluição que impede de ser feliz

Ligado . Publicado em Artigos . Acessos: 2113

Por Miguel Jorge Souza

Nas cidades antigas, o Fundador era o cara. Era ele responsável pelo ato religioso, quem acendia o fogo sagrado e que por meio de suas preces e ritos invocava os deuses que protegeriam a urbe e os homens de todos os males, tanto os naturais como os criados. As pessoas viam nele o Pai da cidade, uma Providência, como um semideus da cidade, pelo qual lhes eram muito gratos pelos efeitos positivos e pela proteção. Os tempos agora são outros, os semideuses se transformaram em cidadãos e a proteção veio por meio do Estado, a cidade evoluiu para a independência do puro acaso mas, e por conta disso, vieram os problemas pelo distanciamento entre mundo natural e o mundo criado.

Assim, as cidades reais foram sendo descuidadas e escondidas sob a ótica do consumidor, sem nenhuma compreensão dos mecanismos que nos levaram à situação em que estamos metidos: estrangulamento socioeconômico, adensamento populacional com mal uso da ocupação do solo, escassez hídrica, ausência de saneamento, mobilidade zero, segurança alimentar em risco e desmensurada poluição generalizada, entre vários outros meandros. Nada melhor para compor este quadro do que a Baía de Guanabara.

A Baia de Guanabara é abraçada por um continuo e imenso conglomerado urbano em dinâmica de crescimento que, por conta da soma de todos aqueles fatores já citados acima, estrangulam seu viver essencial. A baía caminha para o CTI por força da ausência de uma governança metropolitana e de um planejamento integrado.

Não fica difícil perceber que todos os problemas para resolver são de grandes dimensões e, que foram sendo sistematicamente relegados ou esquecidos tais como as principais fontes causadoras da poluição das suas águas.

As fontes principais de carreamento e transporte de poluentes e sedimentos para dentro baía são as águas pluviais, esgoto e drenagem urbana, que sofre por conta do método de saneamento utilizado, ou aprovado, pelo Estado. O sistema adotado, de separador absoluto, que pode receber ou não despejos industriais tratados, não consegue e nem está preparado para dar conta do aumento constante da poluição que vaza para dentro dos corpos hídricos receptores, como os rios que desaguam na Baía de Guanabara.

Dependemos seriamente para compreensão desses fatores geradores de poluição, de estudos sistemáticos de hidrologia que abarque não só a baía como as bacias dos rios contribuintes, dos sistemas de drenagem que atuam nesse conjunto complexo, do extravasamento dos esgotos para dentro das redes pluviais, e de uma ampla análise e avaliação da eficiência dos sistemas de esgotamento em operação.

Sabemos que na ausência de edificações, as superfícies escoam para os corpos d’águas da bacia, sólidos dos solos de áreas desnudas e nutrientes das áreas vegetadas. Já em zonas densamente urbanizadas, as águas das chuvas transportam as cargas não pontuais que levam de tudo para dentro dos corpos receptores como sólidos suspensos, óleos, graxas, metais pesados, nutrientes, matéria orgânica e lixo, cuja quantificação depende do intervalo entre as chuvas, e de sua intensidade.

A rede de esgoto da cidade do Rio de Janeiro é muito antiga, construída para um tempo onde só existia domicílios e edificações unifamiliares. Suas tubulações e juntas de barro vidrado, de pequeno diâmetro, já não suportam mais as cargas que vieram com o amento das edificações e do adensamento populacional. Por conta disso, a impossibilidade de atender o escoamento da vazão de esgoto, que une no mesmo barco demografia e dimensionamento da rede, criou-se ligações de extravasamento do sistema para a rede de galerias pluviais e dessas para os rios e canais das bacias de esgotamento. Isso quando, em alguns lugares da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, nem rede existe.

Temos problemas também nas chamadas comunidades e favelas, áreas de difícil acesso, em torno da região da Baía de Guanabara. Aí os esgotos gerados formam extensas valas negras que quando não contaminam o solo chegam aos sistemas de drenagem, indo para os rios e canais que vertem para a baía.

Portanto, temos dois sistemas paralelos de esgotamento sanitário. Sendo que no Pluvial, além do esgoto, tem também os sedimentos de cargas não pontuais trazidos pelas chuvas. Carga poluidoras estas, transportada pelas águas pluviais contaminadas sem quantificação ou dimensionamento e que não passam por nenhuma estação de tratamento, são extravasadas diariamente nos rios afluentes da baía.

Das soluções apresentadas, a mais interessante é a que menciona a ligação das redes condominiais ao sistema de esgotamento existentes nas cidades, com a universalização dos ramais e troncos de coletas, para posteriormente serem encaminhadas para as estações de tratamento e depois para os emissários submarinhos. Ou também o reaproveitamento dessas águas para reuso nos sistemas industriais. Já aquelas que lavam as ruas e carreiam as maiores cargas poluidoras pelos sistemas de águas pluviais, deveriam também ser tratadas retirando assim os sedimentos das descargas sólidas, os nutrientes e a carga orgânica, vindas de diferentes fontes, que caem ainda diariamente de forma sistemática, infelizmente, dentro da Baía de Guanabara.


Fonte: Página do autor no Facebook.

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