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A chuva em três desertos

Ligado . Publicado em Arthur Soffiati . Acessos: 2061

Imagem: phdtravel.com

Por Arthur Soffiati

Poucas pessoas, fora e dentro do meio acadêmico, sabem que as Regiões Sudeste e Sul do Brasil já fizeram parte de um grande deserto quando a América ainda não havia se separado totalmente da África. Esse deserto existiu há cerca de 130 milhões de anos. Não existia ainda o Oceano Atlântico e o Rio Amazonas desembocava, então, no Oceano Pacifico.

Para quem ler sobre esse assunto pela primeira vez, aqui neste artigo, pode ter dificuldade de entender que, há milhões de anos, as futuras América e África estavam unidas num grande continente, hoje batizado de Gonduwana pelos cientistas. Que geografia maluca, exclamarão. Quando eles se separaram, muitas mudanças aconteceram na América e na África. Ergueu-se a Cordilheira dos Andes de forma repentina, considerando-se a palavra "repentina" em termos de tempo geológico. O Rio Amazonas mudou de curso, passando a desaguar no Atlântico e formando uma imensa planície. A grande umidade dessa planície gerou uma extensa e complexa floresta, que chupa água do Atlântico. A evaporação das árvores é empurrada pelos ventos, formando os chamados rios voadores, que formam zonas de convergência de umidade, condensam-se e precipitam-se na forma de chuvas sobre o cone sul da América.

A cordilheira dos Andes constitui uma alta e comprida barreira represando os rios voadores e os dirigindo para o sul. Em outras palavras, se não fossem a umidade da Amazônia e os rios voadores, o Sudeste-Sul do Brasil continuariam a ser desertos. Foi essa grande umidade que substituiu a aridez do cone sul por uma grande fertilidade. Foi ela que permitiu a formação da Mata Atlântica e do Aquífero Guarani.

Se corrermos o dedo sobre um globo terrestre, seguindo a mesma latitude do Sudeste, encontraremos, no norte do Chile, o Deserto de Atacama, o mais alto e árido do mundo, embora conte com lagoas. Se corremos o dedo em direção à África, na mesma latitude, encontraremos o Deserto de Kalaari. A Cordilheira do Andes não permite que os rios voadores irriguem o Deserto de Atacama. Por outro lado, as nuvens no Oceano Pacífico se condensam antes de alcançarem o deserto, que alcança até a altitude de 6.885 metros. A média anual de chuvas é de 4mm anuais. Só para se ter uma ideia da aridez, a precipitação pluviométrica anual do norte noroeste fluminense é de 1000 mm mais ou menos. E nós estamos reclamando da seca.

Nos dias 24 e 25 de março de 2015, um fenômeno muito estranho aconteceu no árido Atacama. Choveu, em dois dias, o equivalente a 16 anos, ou seja, 65mm. Com tanta chuva em tão pouco tempo, as estradas foram atingidas, a pequena população do deserto sofreu as consequência de uma anômala enchente e as linhas de transmissão de energia caíram. Não há registro de chuva tão abundante no mais alto e árido deserto do mundo. É um sinal dos tempos e um aviso do planeta.
Também no Deserto de Kalaari, a aridez é grande, mas não tão acentuada como no Atacama. As condições de habitabilidade de plantas, animais e humanos são mais amenas. Mesmo assim, a secura é muito grande.

Para nós, a conclusão parece ser óbvia: o Sudeste-Sul do Brasil são um milagre construído pela a Amazônia, que produz vapor d´água transportado para as áreas meridionais do Brasil, e pela Cordilheira dos Andes, que não permite a dispersão do vapor d'água produzido pela Amazônia. É inimaginável a destruição dos Andes pela ação coletiva de humanos. Mas a floresta amazônica pode muito bem ser suprimida por ação antrópica, como, progressivamente, já está acontecendo. A Amazônia ainda tem uma função mundial: produzir oxigênio, absorver CO2, refrigerar o planeta e refratar os raios solares.

Infelizmente, a Amazônia não é assunto prioritário para o Brasil, para os países amazônicos, para o Uruguai, a Argentina e o planeta. Os países estão mais preocupados em promover o crescimento econômico e aumentar o produto interno bruto (PIB). Para o PIB, destruir a Amazônia é bom negócio, pois se pode vender a madeira, criar gado e expandir a fronteira do agronegócio. Para o equilíbrio da Terra, é um desastre, inclusive para a economia.

A população brasileira tem manifestado em praça pública muitos descontentamentos. Mas eles não passam do individual e do imediatamente coletivo: saúde, alimentação, educação, transportes, reforma política etc. Nada sobre a Amazônia e o ambiente em geral. Vivemos por causa deles e fazemos de conta que eles não existem. A crise hídrica do Sudeste está intimamente ligada aos dois.
Já passamos da hora de cobrar do governo federal cuidados com a Amazônia, liderança no Pacto da Amazônia e posturas mais progressistas nas conferências mundiais de ambiente. O mesmo devem fazer os países do mundo todo, sobretudo os mais ameaçados pela crise ambiental atual.


Fonte: Página do autor no Facebook.

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